Rankings e relevâncias

A cada dia, cerca de trinta milhões de pessoas acessa o youtube para assistir um total de cinco bilhões de vídeos. A cada minuto, os criadores fazem upload de trezentas horas de vídeo no site.

Faça uma pesquisa no Google, na Wikipédia. Acesse o Facebook, o Twitter, o Instagram. Veja os sites alternativos, Vimeo, Twitch, Reddit, Imgur. As suas queries, suas pesquisas, e os seus feeds, as listas de conteúdos atualizadas para você, organizam um conteúdo quase infinito, em constante criação e mutação. Tudo em uma prática listinha de links enumerados.

Como isso funciona? Ora, primeiro se constrói uma base de dados na qual as pesquisas serão feitas. Depois você monta índices a partir do conteúdo das páginas, eles são compostos de palavras que apontam para as páginas na base de dados. Ao receber termos de pesquisa, cruze-os com os índices e voi-lá! Você tem os seus resultados…

Não é uma coisa nada simples.

A palavra-chave aqui é relevância, um termo bem complicado que é usada para dizer o que o que é importante, o que chama a atenção, o que afeta todo mundo, ou o que me afeta como indivíduo. Relevante é aquilo que exige minha atenção, exige minha resposta, é um ponto-chave. E essa é a questão que está posta.

Pesquisar é encontrar resultados relevantes para suas pesquisas, e isso depende completamente dos índices que mencionamos, montados automaticamente pelas plataformas que você usa.

O Cadê, fundado em 1994, foi um dos primeiros buscadores no Brasil. Ele se organizava por meio um grupo de categorias, um índice temático para os sites: Ciência e Tecnologia; Compras Online; Cultura; Educação/ Esportes; Finanças; Governo; Indústria e Comércio; Informática; Internet; Lazer; Notícias; Referência/Saúde; Serviços e Sociedade. Cada um destes tinha suas próprias sub-categorias.

Snapshot do Cade em 1998, tirado pela Wayback Machine

Se quiser ver melhor como funcionava esta relíquia da internet, recomendo usar o Way Back Machine, do Internet Archive que te permite ver snapshots de várias páginas a internet no decorrer dos anos. Este é um link para o Cadê em 1999.

Então, ao se inscrever no Cadê, o dono de um site tinha que colocar um pequeno texto que descrevia o seu conteúdo. Nas sub-categorias, os sites eram listados em ordem alfabética. Explorá-las era uma aventura.

Ora esta organização é simples e histórica. A cópia da enciclopédia Barsa dos meus pais divide o “conhecimento humano” em verbetes alfabéticos. A lista telefônica, que contém mais informações, precisa de um segundo nível de classificação, e se divide em páginas brancas, com números pessoais, e páginas amarelas, com números de serviços e negócios em uma subclassificação (advogados, dentistas, arquitetos…). Foram soluções práticas de como organizar uma série de informações para consulta.

A internet apresentava um novo problema, suas páginas não são construídas apenas como uma forma de contato, mas de publicação. Os usuários escreviam suas fanfics, publicavam seus relatos de viagens, seus textos, suas ideias, manuais e histórias. O conteúdo se diversificava, ficava cada vez mais dinâmico, e o número de páginas crescia rapidamente*.

Se, no Cadê, houvessem pouco menos de quatrocentas páginas na categoria de Cultura, como o serviço poderia garantir que as páginas cujo nome começassem com a letra Z teriam a mesma visibilidade que as que começam com a letra A, se o usuário as recebe ordenadas alfabeticamente? Isso não diminuiria o número de visitas nos sites mais embaixo? E se eu não soubesse, mas o site que eu estava procurando começasse com a letra Z, eu não teria que perder muito tempo procurando o seu nome na lista? E se o número de páginas continuar a crescer?

O problema foi resolvido pelas buscas por termo, ou queries. O usuário digita um termo ou uma frase que busca, o sistema busca em um índice quais páginas correspondem a este termo. Esta forma permite uma maior automação, pois pode usar crawlers automáticos, programas que buscam por novas páginas nos servidores da internet e as inserem na base de dados sem precisar que o dono do site tenha que descrevê-lo. As técnicas são diversas, mas as tags HTML de metadados se tornaram bem menos importantes. Essa busca também permite isolar artigos dentro de páginas – se um jornal de economia decide publicar um texto sobre moda, você poderá identificá-lo sendo deste assunto através da query, o que não aconteceria no índice temático.

A primeira busca por queries que eu usei foi o Altavista, para buscas mais específicas, ao mesmo tempo que usava o Cadê, para surfar na internet. O modelo de query mais bem comum é o tf-idf, ou frequência de termo – frequência inversa de documento. Cada página encontrada pelo crawler passa por um pré-processamento, no qual ela preprocessa os textos (retira, por exemplo, artigos e coloca todos os verbos no infinitivo) para depois contar as palavras, anotando quantas vezes elas aparecem no texto. Daí se cruza esta pontuação do documento com a de sua base de dados, multiplicando essa quantidade de cada palavra pela sua raridade no banco de dados total, dado pela proporção de documentos que contém o termo. A palavra “casa” com certeza é menos rara do que “escritura”, então tem um valor menor para as buscas. Isso é bastante trabalhoso, mas é automático, feito por programas e algoritmos.

Usando estes índices de pesos e valoração das palavras, é possível fazer alguns pequenos, ou grandes, ajustes nas buscas misturando-os a outros.

O boom dos buscadores aconteceu quando lançaram o Google, que adicionou outras métricas para as buscas além do tf-idf. Sua mais famosa é o número de links que apontam para as páginas, quanto maior o número de links apontando para a página, mais importante ela seria. Oura métrica importante, e pouco falada, é o seu AdWords, que relaciona buscas de termos específicos a propagandas pagas de empresas. Isso foi fundamental para que a empresa se tornasse rentável, e não apenas desse retorno aos seus grandes investidores, mas atraísse ainda mais (#1).

Lembre-se que, nos primórdios, a propaganda na internet se dava unicamente por meio de banners e pop-ups, áreas do seu site que você vendia para alguém anunciar alguma coisa. Agora, os buscadores descobriram que podiam não só buscar conteúdos para seus usuários, mas consumidores para as empresas!

E podiam fazer várias recortes sobre a população, poderiam segmentá-la de diversas maneiras. A língua e o local do usuário são índices muito relevantes no Google, podemos ver isso facilmente usando VPNs para fazer as mesmas buscas em países diferentes.

Os buscadores não eram mais uma simples curiosidade acadêmica, ou uma facilidade – era um negócio provado, que vinha em boa hora. A partir da metade do ano 2000, o setor de tecnologia digital passou por uma forte recessão, mas este “estouro da bolha dot com”, como ficou conhecido, não pareceu afetar o número crescente de pessoas que acessavam a internet. Enquanto uma série de negócios faliam, a infraestrutura ainda recebia investimentos, novas tecnologias estavam sendo desenvolvidas, e muitos investidores procuravam novos lugares para colocar seu dinheiro.

Demorou anos, mas o crescimento do mercado social da internet foi crescendo sobre as fortes bases da AdWords. Hoje, o Youtube, o Twitter e o Facebook se consolidaram como as grandes plataformas sociais da web, com milhões de usuários acessando-os diariamente (também temos a Amazon, o gigante oculto da internet). Seu modelo de negócio se dá, principalmente, pela propaganda.

Foto de um escriba em Xangai, 1900 – 1919. Retirado da Wikimedia.

Um passo além do AdWords é a criação de perfis dos usuários. Como cada usuário tem um universo de desejos e significados próprios, saber quais termos ele usa pessoalmente, quais as suas queries mais comuns, onde ele mora, que língua fala, são todas informações que permitem direcionar a propaganda com ainda mais precisão. A sua rede de contatos também pode ser comercializada, o Facebook Social Graph é um exemplo de como uma empresa pode usar a propaganda boca-a boca a partir de simples cliques e likes.

Mas, nesses últimos anos, passamos por uma crise nesse casamento de forças que tem organizado a infosfera. Um estudo recente mostrou que usuários que deixam o Facebook tem uma melhora significativa em seu estado mental (#3), as experiências pessoais parecem confirmar que essas plataformas estão exigindo um pouco mais do que gostaríamos.

Talvez os próprios índices estejam se voltando contra os usuários. Ao buscar maior participação e envolvimento dos usuários, o Facebook pode ter apelado para certos aspectos das nossas personalidades que não gostamos. (#4, #5) são alguns exemplos acadêmicos que apontam como a raiva é um sentimento extremamente viral e como as comunidades virtuais são propícias para o espalhamento de notícias falsas.

Mas nos mantemos nas redes sociais, elas chegaram para ficar.

No seu livro Religião para Ateus, o filósofo Alan de Botton enumera várias virtudes das práticas religiosas tradicionais sob um ponto de vista sociológico. Apontando os papéis da religião na formação das comunidades antigas, ele nos mostra alguns pontos bem interessantes que podem explicar porque gostamos tanto das redes sociais, mesmo que elas nos desapontem e nos traiam.

Segundo Botton, as igrejas locais não tinham apenas uma função religiosa e não eram só uma forma de se controlar a população por meio da religião. Elas não serviam como um espaço de referência e de organização, um lugar ao redor do qual a comunidade se articula. Indo um passo além, as missas semanais eram uma forma de comemorar e lembrar as pessoas, fazê-las retomar o que é importante. Isso seria importante porque as pessoas tendem a se esquecer com a rotina, ter suas atenções capturadas por pequenos problemas e pelas dificuldades do dia-a dia, se desviando da identidade que une a comunidade. Exercer a lembrança, comunalmente, reforça laços de comunidade e identidade, essenciais para qualquer ser humano.

Talvez este seja o segredo por trás das redes, elas são uma lembrança e um modo de exercer. São uma forma de se formar comunidades distantes e distribuídas, onde trocamos mais informações em um ritmo mais rápido. Não é de se impressionar que memes sejam uma forma tão popular de conteúdo.

Também há alguns paralelos entre os movimentos da televisão e das redes sociais. Lá em 2000 e pouco, quantos programas apelativos não apareciam, criando fórmulas que quase todos os canais seguiam? O jornalismo policialesco diário, programas de auditório, reality shows, a banheira do Gugu e as dançarinas… São receitas para se aumentar a audiência, e olhando os vídeos recomendados e em trending no youtube, dá pra ver um pouco do mesmo.

Ao invés de nos focarmos nos indivíduos, os consumidores e propagadores, vale a pena olhar os produtores nas redes, os que fazem e distribuem a informação, especialmente os mais bem-sucedidos – esta é a dica de Noam Chomsky em “Fabricando o Consenso” (1988). Para ele, temos que ter uma leitura mais crítica da mídia observando-a estruturalmente, que tipos de conteúdos são publicados, como os seus editoriais se comportam, como elas distribuem os seus recursos (repórteres e linhas das suas reportagens).

Chomsky conclui que a mídia não necessariamente controla a opinião das pessoas, mas, no melhor estilo capitalista, as segmenta. Ela arregimenta grupos de pessoas como audiências comuns, tornando mais fácil para escritores (comentaristas) prepararem textos que irão vender, assim como criando uma plataforma viável de propaganda. Pense nas revistas que existem, elas representam muito bem ideologias específicas, uma pessoa as compra pensando que vai ler matérias de seu interesse e que lhe ajudem a formar uma visão de mundo – a sua visão de mundo.

Vamos fazer um exercício. Você é o editor de uma revista diante de uma dezena de reportagens, e tem que escolher qual delas irá para a capa. Agora, qual imagem será colocada? Uma charge inspirada? A foto de um personagem? Uma imagem que invoca um sentido de nostalgia? De raiva e injustiça? E mais, como será a chamada? Quais termos serão destilados e colocados nela? O que você quer invocar e relevar? E se você tem que vender esta revista, quais artifícios vai usar para chamar atenção? Como vai fazê-la saltar à vista na banca? Como você vai ser relevante para o comprador?

O fator é duplo: como chamar atenção do leitor e como oferecer algo que ele quer ler – ou, numa leitura mais maquiavélica, como convencer ele de que ler a revista é importante? Assim fica fácil entender não só as revistas, mas as propagandas e até a apelativa programação das televisões acima.

O que acontece nas redes sociais é uma subversão dessa ideia. A troca é submetida a um sistema econômico de reações. Não só há uma maior participação e maior viralidade do público, mas os feeds acabam formando uma zona de competição entre “editoras” e as redes de contato podem ser um vetor de difusão de suas notícias. Como tudo é contado a partir de cliques, o maior número de pessoas que receber e clicar na sua mensagem, mais valiosa ela foi. Isso é medido, quantificado. A promessa era simples, de que os algoritmos iriam selecionar assuntos que queremos ler, é uma faca de dois gumes, porque torna o serviço uma propaganda individual. O algoritmo também reúne, sob um mesmo termo, buscas de significados completamente diferentes: se eu procurar por gato Willis, receberei fotos de gatos ou do ator Bruce Willis, resultados completamente diferentes de que se eu estivesse procurando pelas charges políticas usadas na Tunísia. Claro, ainda há segmentações, pelo menos pela língua, mas elas são diferentes, até porque os feeds são algoritmos, não uma estande de revistas.

O caso dos trolls** russos nas eleições estadunidenses de 2016, que conhecemos por uma narrativa ainda incompleta e parcial, é um exemplo para esta análise. Acredita-se que há um programa estatal, uma fábrica de mentiras e de sensacionalismo, que atice os maiores medos das populações e as façam se extremar. Claro, a eficiência destes ataques é uma questão em aberto, mas eles são um fato tão importante que se tornaram centrais na discussão sobre as eleições. As polêmicas que eles geraram, e os grupos de pessoas que eles arregimentaram, tomaram conta dos debates.

Uma ferramenta essencial para esses casos são os bots, contas fantasmas, de pessoas falsas, operadas por um mesmo usuário ou automaticamente por programas, formam redes de divulgação dentro das redes sociais, criando caminhos entre diferentes comunidades, para além das amizades, dando um alcance maior a certas postagens. Nós interagimos com eles, e muitas vezes nem percebemos.

As redes sociais políticas são eficientes porque espalham conteúdo em grupos organizados em vários níveis. Atores menores utilizam-se de notícias e artigos (além das fake-news) reformando-as e redistribuindo-as para seus públicos específicos. Nos escândalos da eleição estadunidense, democratas e republicanos usaram uma polêmica envolvendo o hacking de e-mails dos partidos para tentar enquadrar o outro como um incompetente – e foi uma estratégia bastante eficiente nas primárias. As infinitas leituras desses casos são um exemplo do quão prolífico é este campo de interpretação política.

“Falem mal, mas falem de mim” diz a sabedoria popular. As polêmicas são interessantes não porque convenceram as pessoas a serem contra um ou outro candidato, mas marcavam, martelavam os erros. Elas nem precisam se darem ao redor de informações corretas, análises inteligentes, ou racionalidade. Ela não é importante pelas respostas que ela traz, mas pela questão que ela coloca. Não pela quantidade de informações que envolve, mas pela quantidade de gente que a discute. Um debate costuma ter apenas um assunto por vez, e se temos um debate público gigantesco então a sociedade está olhando para uma questão em si, a polêmica. Controlar o assunto das conversas (não suas conclusões), é isso que uma boa polêmica pode fazer.

Gui Debord discorreu sobre o assunto no seu livro de 1967 “A Sociedade do Especáculo”. Ele criticava tanto o Stalinismo, quanto o Capitalismo ocidental por serem sistemas que criaram mundos de fantasia, descolando a informação da realidade. Nas suas 221 teses, ele tenta descrever várias relações entre os cidadãos e o espetáculo, esta coisa que acaba por substituir a participação democrática por uma luta virtual por valores que, em última instância, acaba nos impedindo de reais mudanças e participação. O espetáculo, dizia, é uma confusão que mistura coisas de lugares diferentes em tempos diferentes, e sua máxima realização é a ofuscação do outro – é quando me impede de entender quem se opõe a mim.

Debord, um marxista, se impressionava como os modos de produção conseguiam hegemonizar a comunicação, como eles conseguiam construir uma história a partir de sua própria narrativa, criando uma plataforma sobre a qual as pessoas discutiriam, sem efetivamente serem capazes de ir além da dicotomia, sem aumentar seus conhecimentos, sem ir além da questão (tese 217). Isso se ergue a tal ponto que as polêmicas, como vemos hoje, geram fatos alternativos, narrativas que poderiam competir com qualquer outra, mesmo que não se sustentassem em estudos verdadeiros.

E nisso há uma contradição que Debord aponta. O nosso tempo se torna uma moeda que nós investimos, nossa atenção seria a moeda do espetáculo, mas não podemos colocá-la onde queremos. Tudo se torna uno, classificado por relevâncias, colocado no mesmo feed, nossas opiniões são reduzidas à questão, e a informação tem que a ela responder. Quando uma questão é relevante, nós acabamos sendo posicionados nela. Ser um isento, colocar-se no meio, pode até ser um esforço honesto de resolver a contradição, mas também é tentar dizer que ela não tem esse valor divisivo, tentar relativizá-la, ir contra a polêmica. Como já discutimos antes, nem toda questão pode ser intermediada pela razão, ainda mais se está no domínio da persuasão.

Sonhos de uma Noite de Verão, a peça de Shakespeare onde fadas controlam um grupo de pessoas para o seu entretenimento. Ilustração do Doré, retirada da Wikimédia.

Mas a internet sem os buscadores e sem as grandes plataformas não seria a mesma e nem teria a sua utilidade e alcance. Somos muito mais capazes de nos comunicar via Facebook e Whatsapp, mas eles se tornam um espaço onde a peça do filho de uma amiga compete por “atenção” com o próximo filme dos vingadores. E ambos usados para medir como é minha interação com meus amigos e com marcas. Estar conectado é isso, estar ligado, ser colocado em um mesmo espaço, poder compartilhar, mas também concorrer. Concorrência tem ganhadores e perdedores (e uma função de otimização, mas isso fica para outro dia). Como podemos proteger e exercer a variedade?

Se a esfera virtual fosse apenas um grande sistema de controle e vigilância, dificilmente a usaríamos. Ela realmente nos empodera e muda nossas vidas, mas nossas insatisfações costumam ficar sem respostas. Mudar as plataformas pelas quais fazem as “nossas coisas” tem grandes custos cognitivos e sociais, assim como os estados de antigamente, talvez haverá um momento em que estaremos lutando por democracia nesse mundo.

Isaac Asimov, um dos mestres da ficção científica positivista, deu uma entrevista em 1989 onde afirmou que a adoção dos computadores ligados em rede levaria a uma revolução no ensino. As pessoas poderiam se capacitar gratuitamente, tendo acesso a grandes bibliotecas, estudando o que quisessem (#6). Isso abriria as portas para um novo estilo de profissionalização, bem mais fluído que o nosso. O que o visionário não conseguiu capturar na época, e que é um sapo difícil de engolir para qualquer um, é que a internet não é um espaço livre e individualista, onde cada um procura apenas o que quer e o que lhe interessa e o que lhe aprimora. Graças às plataformas, seus feeds e algoritmos de relevância, a internet também é um espaço de competição de entretenimento por público e visibilidade – assim como as televisões.

Tive muitas dificuldades para escrever este texto, para escolher as tecnologias e os casos que dessem um texto coerente. Apesar disso, este texto não aborda muitas coisas, como o estruturalismo dos algoritmos de big data, as possibilidades dos sistemas de descoberta de conhecimento e IA, sobre outros autores das teorias das mídias e até a administração da infraestrutura digital, que se tornou vital! Enfim, este é um assunto ao qual vamos ter que voltar.

* Por exemplo, a wikipédia foi lançada em 2001, e desde lá já era construída sobre a tecnologia wiki, páginas web que podem ser editadas e alteradas online. Antes das wikis, você tinha que ter passar por longo processo para editar o conteúdo online: tinha que escrever a página no seu computador (algumas vezes em html nativo!), conectar-se ao seu servidor por meio do protocolo FTP, fazer um lentíssimo upload da página e encerrar a conexão antes de ver o seu material no ar. Isso poderia demorar horas!

** Termo um tanto antigo para se referir a usuários que costumavam escorraçar novos usuários nas redes de computadores, e que acabou evoluindo para denominar usuários que tentam exercer um controle do conteúdo de uma rede, postando continuamente ou atacando outros usuários, geralmente movidos por patrulhamento ideológico.

Bibliografia / Filmografia

#1 – Download: The True Story of the internet. Criado por John Heilemann e produzido pela Oxford Scientific Films.

#2 – A wikipédia tem um artigo fascinante sobre a bolha dot com, com uma lista de empresas que faliram ou que sofreram uma forte perda de valores.
https://en.wikipedia.org/wiki/Dot-com_bubble#Companies_significant_to_the_bubble

#3 – Não tenho acesso ao estudo completo, infelizmente :(, li sobre ele na forbes:

https://www.forbes.com/sites/alicegwalton/2016/12/23/want-mental-health-for-the-holidays-take-a-break-from-facebook-study-says/#574812485ce6

#4 – http://robingandhi.com/wp-content/uploads/2011/11/Social-Transmission-Emotion-and-the-Virality-of-Online-Content-Wharton.pdf

#5 – https://pdfs.semanticscholar.org/cffe/d190dc8b9180c7be2867c210791ba7597551.pdf

#6 – http://www.openculture.com/2012/04/isaac_asimov_digital_learning_in_the_electronic_age.html

Internet World Stats, onde tem uma boa quantidade de dados sobre a expansão da internet nos seus primórdios: https://www.internetworldstats.com/emarketing.htm

Botton, Alain de. Religião para Ateus. Editora Intrinseca, 2011.

Debord, Gui. A Sociedade do Espetáculo.

Manufacturing Consent: Noam Chomsky and the Media. Documentário de 1992, dirigido por Mark Achbar e Peter Wintonick.

Informar-se num mundo de Fake News

Fake News, um termo em inglês para discutirmos a grande polêmica do momento: as notícias falsas.

Apesar da controvérsia existir desde os primórdios da sociedade, parece que ela tomou uma outra dimensão por causa das redes sociais. Agora, qualquer um tem a capacidade não só de criar, mas de espalhar boatos globalmente, e o poder da imprensa tradicional, com os seus editores que planejavam e construíam as revistas e jornais divididas para diferentes públicos-alvo, foi subvertido.

De repente, uma das medidas mais importantes para a comunicação se tornou a viralidade, o quão “contagiante” é uma mensagem, qual o seu potencial de se propagar. Na abundância de informações nos repositórios da internet, produzidas individualmente pelos seus usuários, organizadas e ofertadas em feeds e queries, monetizadas por meio de propagandas, criamos um mundo novo sem as amarras dos controles editoriais, diversificamos ainda mais os grupos de nossa cultura, e a “hegemonia” – o que a sociedade considera como conhecimento certo, como valores necessários, e como costumes comuns – está sendo transformada radicalmente.

E chegamos no momento em que estas plataformas sociais começam a ser inspecionadas e regulamentadas pelas grandes instituições. O Facebook, a maior plataforma social da internet (e suas filiadas Whatsapp e Instagram) está sofrendo críticas de personalidades exigindo mudanças, e ações que ameaçam o seu modelo de negócio. Zuckerberg e seus engenheiros devem estar quebrando a cabeça para resolver as tais Fake News. Os legisladores, lobbistas e ativistas também.

Tirina do Mundo Avesso sobre a crise de informação, visite a página do autor, Carlos Ruas, em https://www.umsabadoqualquer.com/

Boatos e fofocas sempre existiram, e os próprios jornais também criam narrativas e manipulam a informação de acordo com suas agendas. Mas, por trás das Fake News, há uma questão bem humana. Se lemos uma notícia, como decidimos se ela é verdadeira ou falsa? E se ela contradiz o que acreditamos, o que fazer? Repensamos nossas crenças, ou ignoramos o novo?

Informar-se e educar-se são duas faces do mesmo processo.

A tirinha acima ilustra um ponto de vista bastante comum. “Antes”, numa era de escassez de informações, as fontes poucas e controladas. O risco, como dá pra se notar pelo fundo desértico, era morrer de sede. Hoje, o excesso de informação inverte a situação. Ninguém parece ter risco de não acessar a informação, mas as pessoas ficaram à deriva, boiando sem chão num mar contraditório e inseguro.

É interessante como o professor é representado. Vestindo um jaleco branco, ele controla o acesso à informação na era do “antes”, e na era do “depois” é quem tem altura suficiente para não precisar nadar no mar de informações. O titã do conhecimento se vê impotente enquanto um de seus alunos “descobre” que a Terra é plana.

Informar é um processo irmão de ensinar, e não é a toa que colocamos a culpa de quase todos nossos problemas na educação. Mas “antes” era como na tirinha? Houve uma época em que o professor sabia tudo sobre um assunto e apresentava os conteúdos de forma palatável para os seus alunos?

Talvez, mas este não era um passado romântico e agradável. Qualquer um que já tentou dar uma aula para crianças e adolescentes sabe como as turmas tendem a ser heterogêneas, sabe que seus esforços terão resultados bem diferentes para cada aluno. Não só a atenção e o interesse que costumam ser relevantes na hora de montar as turmas do fundão e os CDFs, mas o próprio conhecimento que eles trazem e as suas relações pessoais. E quanto aos professores, vá a uma reunião pedagógica, e tente anotar quantas vezes você vai escutar que os alunos não sabem porque não tiveram boas bases, porque tem deficiências dos anos anteriores. Ensinar nunca foi um processo fácil, e vários alunos já tiraram boas notas em provas sobre conteúdos que esquecerão ou que passarão a duvidar alguns anos depois. O professor, por mais que saiba sobre um assunto, ainda trabalha com a mesma matéria-prima que a imprensa, a informação, aquilo que faz os outros se informarem.

O nosso sistema de ensino acredita ser capaz de fazer com que uma turma de dezenas de pessoas “acredite” que há plantas sem frutas, que peixes e mamíferos são cordados, que a bháskara realmente encontra os valores possíveis de x numa equação? Um professor explicando deveria bastar? Ler no jornal basta para aprender sobre um fato?

Temos uma cultura cientificista, achamos que nós acreditamos no que é científico, que foi embasado em fatos, observações e deduções lógicas puras. Aquilo que não tem estas bases é firula, gosto ou delírio.Isso chega a tal ponto que, muitas vezes, aquele que é incapaz de concordar com nossas certezas ou não as compreende ou está mal-intencionado.

Mas se eu nunca vi todos os tipos diferentes de plantas, como posso saber que os livros estão certos? Por mais que os peixes tenham espinhas, jamais imaginaria que eles fazem parte do mesmo filo que nós, os mamíferos, uma forma taxonômica tão abstrata que simplesmente assumo como correta. A própria dedução da bháskara foi algo que eu não vi numa sala de aula, só alguns anos depois de ter me formado no ensino médio, sendo que ela foi essencial para que eu saísse da escola.

Acreditamos que acreditamos no que é certo. Mas é isso mesmo? As informações e o nosso conhecimento estão além da empiria e da transmissão verbal, elas passam também por outros critérios, dentre os quais a relevância e a credibilidade estão tomando um papel central.

Detalhe do afresco A Escola de Atenas, de Rafael. No meio dele, o velhoPlatão (esq) debate com Aristóteles (dir). Fonte: Wikimedia

A Arte Retórica é um livro escrito por Aristóteles no século IV antes de Cristo. Junto com os diálogos de Platão serviu, por muitos séculos, como base para o entendimento da retórica, do discurso e do debate no mundo europeu.

Lá naquela época, o autor identificava três formas como as pessoas são convencidas de um argumento.

A primeira forma é chamada de Logos, os argumentos e a racionalidade. Este seria o discurso estruturado, a apresentação de premissas, aceitas por ambas as partes, e sua organização em conclusões, geralmente utilizando-se de princípios comuns ou apontando evidências.

A segunda forma é o Pathos, os argumentos que apelam à emoção, que colocam o ouvinte em um estado mental específico. Por meio de anedotas, casos e discursos apaixonados, uma pessoa pode dar apoio mesmo às ideias que não a compreenda muito bem. Veja o marketing moderno, que nos convence de que um carro é bom porque é uma fonte de virilidade, força e sexualidade, mesmo que ele seja absurdamente grande, custoso e consuma muita gasolina para os meus usos. Na minha leitura, utilizar o Pathos é tornar o discurso relevante para o ouvinte.

A terceira forma é o Ethos, os argumentos que apelam à autoridade. Mais do que um carteiraço, o Ethos apela à ordem, a moral e a ética, ao bem comum, ao senso do que é correto, virtuoso, honesto e honrado. Faltar com o Ethos é faltar em caráter, ir contra o Ethos é ir contra a sociedade. Neste texto, o Ethos é a credibilidade da fonte, quanto mais crível, mais importante é que ela esteja correta.

O modelo de Aristóteles é bem mais aprofundado, mas estes três conceitos já nos dão uma forma de pensar não só sobre a retórica, mas também sobre a informação e como a usamos para construir conhecimentos e consensos. Se nos perguntarmos por que acreditamos em alguma coisa, geralmente podemos apontar como Logos, Pathos ou Ethos. E o motivo para isso é bem simples: Não é fácil garantir que as informações para uma tomada de decisões são completas!

Imagine, você está cozinhando uma bela lasanha, usando um termômetro para regular o forno a 180º. Se a temperatura subir acima do nível, tem que diminuir o fogo e abrir um pouco o forno. Quando a massa dourar e o queijo derreter, você pode degustar sua janta. E isso vai ser o suficiente para quase todas as vezes que você estiver cozinhando. Estas são ações baseadas em um conjunto de informações precisas, com um fim claro, mas quantas escolhas de nossas vidas podemos reduzir a essa regulagem mecânica? Meu estilo de vida, minhas opiniões, não são comparáveis a esta forma de empiria.

Voltando às plantas e suas frutinhas, como eu posso saber que eu posso criar uma generalização, sem ter TODAS as informações relevantes sobre um assunto? Se a racionalidade é limitada pela quantidade de informações que dispomos e que conseguimos usar em uma análise, se o indivíduo não é capaz de experimentar tudo, de observar tudo, muito menos de lembrar tudo ou processar tudo, precisamos de estratégias para tomar decisões. Conhecer e decidir é, até um certo ponto, um ato de fé*.

E voltamos aos nossos Fake News.

Uma das assessoras de Donald Trumo afirmou que sua inauguração foi a maior de toda a história em número de espectadores. Quando confrontada por um repórter, dizendo que isso era falso, ela disse que tinham FATOS ALTERNATIVOS.

Jogada descarada de marketing e mentira para polarizar seus apoiadores? Sim, mas também uma afirmação estratégica, especialmente se vermos que sua campanha foi embasada em acusar conspirações de grupos do partido Democrata.

Estamos vivendo em um mundo mais quente, ou mais frio? Armamentos diminuem a violência? O poder de compra do povo está aumentando? Empresas públicas não funcionam? O empresariado gera riquezas para o povo, ou a tira para si? Questões mais complexas não são redutíveis a um fato observável. Pior ainda se há interesses políticos por trás de certas posições, criam-se fatos para controlar a população. Ainda sobre os EUA, um senador daquele país protagonizou uma anedota bizarríssima: Durante o seu discurso contra regulamentações ambientais, ele de modo triunfante, abriu sua maleta e tirou uma bola de neve de dentro dela, afirmando “Aqui está a prova de que a Terra não está ficando mais quente!”. Um esquete de stand-up decidindo nosso futuro climático.

Se olharmos para as redes sociais junto com as outras instituições midiáticas e políticas, vamos ver que o fenômeno dos fatos alternativos tem uma realidade mais profunda do que só a mentira. E sua relevância está aparecendo justamente por causa dessa participação intensa da população em um debate.

Primeiro vamos esclarecer algumas coisas. Parto do princípio que fatos materiais alternativos não existem, mas existem “realidades individuais” alternativas.

Aquela árvore plantada ali na esquina não deixa de existir para outras pessoas, mesmo para quem não saiba que ela é uma árvore. Mas um biólogo pode entendê-la e classificá-la por sua espécie. Um marceneiro pode cobiçar sua madeira para transformá-la em um móvel. Alguém pode achar que ela é um empecilho para que a rua fosse mais larga.

No livro “A Estrutura das Revoluções Científicas” de 1962, Thomas Kuhn faz uma exploração brilhante sobre os paradigmas científicos. Ele argumenta que a ciência não é negativa, não se baseia na invalidação de falsas premissas, mas na aplicação consistente de diferentes metodologias e teorias para analisar e explicar o mundo. Desta forma, as ciências se desenvolvem por meio da criação de novos paradigmas, quando os métodos tradicionais se tornam insuficientes e um problema requer novas formas de análise. Compare a física quântica com a sua antepassada, a newtoniana, um paradigma é quase uma realidade alternativa, mesmo que analise um mesmo fenômeno.

Como devo olhar para este desenho? Como um coelho, ou como um pato? É o Patoelho, experimento de Wittgenstein. Fonte: Wikimedia

Nós também temos paradigmas, diferentes visões de mundo que embasam as nossas interpretações, são as realidades individuais que habitamos. Claro, uma pessoa pode transitar por mais de um paradigma, e o seu próprio paradigma individual pode se contradizer sobre várias questões, mas há, pelo menos, uma constância e uma sensação de identidade por trás deles.

Nesta identidade estão os critérios de relevância e de credibilidade. Somos porque mantemos esta constância que somos nós, e nossos paradigmas se tornam mais resilientes quanto mais atrelados forem a nossa identidade. Eles nos servem não só como forma de interpretar os fatos, mas também como uma segurança, um lugar onde podemos apostar quando há falta de informações.

Por que nos atermos a uma questão? Por que alguns preferem uma justiça punitiva, e outros preferem uma justiça reformativa? Por que alguns se incomodam mais com o crime, e outros mais com a injustiça?

Algumas pessoas desejam ver um criminoso punido para se sentirem expiadas, outras só se sentirão dessa forma se souberem que o criminoso será reformado ao voltar a sociedade. Nossos valores dificilmente são muito rigorosos. Não fechamos teses para cada um de nossos valores, é muito trabalhoso, demorado e que, quando fazemos, não costumamos usar um rigor muito grande (se alguém me perguntar porque sou contra a pena de morte, não tenho uma tese impressa que exponha minha arguentação para lhe emprestar). Até acredito que boa parte dos nossos valores são quase inconscientes, reações viscerais (guts) que nos movimentam muito mais do que os questionamentos racionais – reações de Pathos.

E o que é pior, nossos valores também podem mudar com o tempo!

E há um outro problema. O Ethos, a credibilidade e a moral social.

Se pegarmos as fotos da inauguração de Trump vamos ver que compareceram bem menos pessoas do que na de Obama. Basta contar. Por que uma parte do pessoal pró-Trump mantém o seu apoio diante de uma mentira deslavada? E por que ainda negam esta ser uma mentira?

Costumamos associar isso às ditaduras e aos regimes totalitários, uma máquina de propaganda estatal que consegue criar uma versão oficial dos fatos que forma uma verdadeira realidade que encobre o que é real (muito bem ilustrado em 1984, de Orwell). Pensamos que a falsidade é uma mentira imposta de cima para baixo para nos dopar.

Só hoje vemos como a falsidade também é uma escolha do indivíduo. Nós parecemos preferir a mentira à verdade, ainda mais se ela está de acordo com nossos ideais políticos**.

No jogo da democracia, grupos políticos precisam de consenso, uma forma de “realidade individual compartilhada”. Limitada para os seus fins, ela nos afeta pelas mesmas três formas que listamos aqui. Logo, se um fato aponta contra o consenso, uma parte majoritária do grupo terá que descaradamente ignorá-lo ou, em tempos de polarização, se posicionar contra o fato, afirmá-lo como uma mentira. A grande tragédia é que as massas são muito maiores do que os indivíduos que as compõem, não adianta uma pessoa mudar de ideia, se o grupo se mantém. Nem todo apoiador de Trump acreditou na mentira de sua secretária, mas apenas por ser seu apoiador, ele se enquadra em um debate cujo fim é a afirmação de um fato alternativo…

A política representativa é um jogo de estratégias e interesses que alimenta este problema. Num mundo em que as grandes questões são votadas por representantes em suas câmaras, em que elas são resolvidas com votos de sim e não, é necessário formar alianças e coalizações. Os consensos podem ser extremamente arbitrários, mas há alguma democracia no mundo em que a política não se divida entre situação e oposição? Todos os conservadores o são pelos mesmos motivos? Todos esquerdistas carregam as mesmas bandeiras? Não, mas os grupos quase sempre acabam se alinhando, por mais diversos que sejam os paradigmas de seus integrantes.

E quanto mais dividida é a política, maior o antagonismo temos com o nosso oposto, e menor é a nossa disposição de aceitá-lo. Em tempos de crise, não podemos dar um centímetro para a nossa oposição, ou arriscamos perder nosso já limitado poder no sistema. O Ethos tem esse lado bastante pernicioso.

O escrito Humberto Eco teria dito: “Mídias sociais dão voz a legiões de idiotas o que eles falariam apenas no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar danos à comunidade. Eles eram rapidamente silenciados, mas agora tem a mesma voz que um vencedor do prêmio Nobel.”

Apesar de adorar o trabalho dele, esta é uma afirmação bem simplista. Os debates bestas que vemos na internet não são a raiz do problema, nem quem participa deles, pois são sintomas de divisões sociais que vicejam numa fértil plataforma. O problema é o que está em voga, é o que, independente dos métodos retóricos, estamos discutindo.

Veja só. Um dos grandes divulgadores da ciência, Neil deGrasse Tyson, dedicou várias de suas aparições em público para refutar um rapper que afirma publicamente que a Terra é plana. Há canais no youtube e grupos no facebook dedicadas a bandeira “terraplanista”. Por que será que um cientista renomado tem que dar uma resposta na televisão sobre um tema tão besta, a uma pessoa que não é especialista?

Esqueçamos as figuras públicas e vamos aos seus “seguidores”. Por quê uma pessoa acreditaria que a Terra é plana, se temos até fotos orbitais e um histórico de experimentos e discussões sobre isso? Ora, porque isso lhe faz participar de um consenso, e um cheio de valor! Não é muito diferente de torcer para um time de futebol, por mais que devesse se basear em uma discussão racional, o fator aqui não é prova e contraprova, mas levantar uma bandeira, torná-la relevante, e usá-la para aparecer.

“Falem mal, mas falem de mim”, a fama é valiosa por si, e as redes sociais criaram um jogo ao seu redor.

Em uma outra realidade, este debate seria muito saudável. Duvidar e argumentar contra o que é consenso, buscar provas e criar teses, mesmo que sejam invalidadas, é uma das atividades que trazem o desenvolvimento científico (para Kuhn). E há argumentações e debates genuínos sobre o assunto, um canal que acompanho, o Cody’s Lab, fez um vídeo bem legal respondendo a algumas perguntas de terraplanistas sobre lentes atmosféricas e o efeito miragem, material de primeira que eu gostaria de levar para uma aula de ciência!

A Torre de Babel, de Gustav Doré. O caos se instala sobre a humanidade,quando ela não fala mais a mesma língua! – Fonte: Wikimedia

Definitivamente, estamos vivendo, não sei por quanto tempo, um período tão grande de liberdade de expressão que estamos mudando profundamente a forma como vivemos e nos organizamos.

É muito cansativo ser bombardeado com informações diversas, muitas delas falsas, e ter que investigá-las. Também estamos nos envolvendo em uma série de debates vazios, que desafiam e questionam os nossos paradigmas com uma obstinação quase perversa. Mas, talvez, estejamos vendo uma grande mudança da maneira como nos relacionamos com o certo, o errado e o alternativo. Talvez estejamos entrando em uma era de maior autonomia intelectual, na qual a autoridade perderá sua importância na nossa formação, e as pessoas passarão mais tempo se informando e debatendo.

Ou, pelo menos, assim espero…

* Uma das primeiras pessoas a trabalhar com este conceito na filosofia ocidental moderna foi David Hume, com o seu problema de indução. Aprendi com a seguinte anedota: “Após vinte anos de viagens e estudos, um biólogo estudante de cisnes chega a conclusão – Todos os cisnes são brancos. Décadas depois, um outro biólogo volta de uma viagem a Austrália, e diz ‘encontrei cisnes negros na minha viagem, nem todos são brancos!’. O que a comunidade científica faz? Aceita a nova afirmação, ou se mantém amarrada à tradição, a espera de mais dados?”.

** Ao tentar abordar o assunto baseando-se na cognição e na tomada de decisão, Pathos e Ethos acabam se mesclando, pois a moral e a autoridade nos afetam também por meios emocinoais (Totem e Tabú do Freud é um livro genial sobre isso). Gostaria de frisar a diferença entre os dois neste texto: o Pathos é relacionado a relevância, Ethos à credibilidade.

p.s1. Não falamos aqui sobre a hipocrisia, a propaganda como forma de controle, ideologia, patrulhamento ideológico, e vários outros assuntos relacionados. O texto já estava meio grande, e eu me demorando 😛

p.s2. John Perry Barlow, que escreveu o manifesto de independência da internet, faleceu dia 7 de fevereiro. Estudei muito pouco do ativista, não sei nada sobre sua vida pessoal, mas suas declarações foram muito inspiradores para mim (e a fundação da EFF, uma história para outro texto!).